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Segunda-Feira, 04 de Dezembro de 2017, 15h:40
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Artigos / LUCAS RODRIGUES

Por que apoiamos Gagliasso e não Taís?

LUCAS RODRIGUES

 

Nas últimas semanas, dois eventos envolvendo racismo viraram notícia e causaram polêmica não só pelos fatos em si, mas pela solidariedade distinta dada pela sociedade a cada um deles.

 

Um dos eventos ocorreu após uma dita socialite chamada Day Mcarthy ofender Titi, filha do casal de atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, uma criança negra de apenas quatro anos. Gagliasso registrou queixa-crime e o apoio a ele foi praticamente unânime.

 

Já a segunda situação trata-se de uma fala da atriz Taís Araújo, lamentando o fato de viver em uma sociedade em que as pessoas mudam de rua por conta da cor do filho dela, que é negro. A situação narrada por ela, apesar de notoriamente comum, foi alvo de ridicularização e piadas grosseiras na internet, além de ser classificada como “vitimismo.

 

O abismo existente entre a parcial solidariedade dada a Taís Araújo com o unânime apoio recebido por Bruno Gagliasso chamou a atenção. Muitos atribuíram esse fenômeno a questões de gênero e cor. 

 

Em uma sociedade racista e machista, não chega a ser estranho que um homem branco tenha mais voz e crédito que uma mulher negra. É possível – e bem provável – que esses atributos tenham tido algum peso em tudo isso, como tem peso em várias situações do cotidiano. Mas o buraco é bem mais embaixo.

 

A diferença do tratamento dado aos dois atores passa longe das complexidades de gênero e cor. A palavra-chave é bem mais simples: hipocrisia e racismo velado.

 

Na primeira situação, a racista tem nome e sobrenome, poucos a conheciam, e a ofensa é direta. É muito fácil e cômodo para todos nós apontarmos o dedo para a dita cuja e a culparmos pelo ato, até porque ‘não temos nada a ver com isso e repudiamos esse tipo de coisa’.

 

Pesquisa feita pelo IBGE em 2011 identificou que 97% dos brasileiros diz não ter qualquer tipo de preconceito de cor, mas, ao mesmo tempo, afirmam que conhecem alguém que tem. Não é difícil concluir que vivemos em uma realidade paradoxal neste país, em que só o outro é preconceituoso, nós não, jamais. 

 

Esta mentira deslavada que demos ao IBGE cai como uma luva para explicar a falta de solidariedade com a Taís Araújo. Ela não culpou uma pessoa específica pelo preconceito contra o filho dela, assim como pelo preconceito contra os filhos de outras milhões de mulheres negras, mas culpou a todos nós enquanto sociedade.

 

E sabe porque ela foi ridicularizada? Por que além de falar uma verdade explícita, O CHAPÉU SERVIU. Serviu em mim, serviu em você que está lendo e em todos os que fizeram piadas de mau gosto contra ela. Taís Araújo não nos deu alguém para culpar ou para podermos convenientemente apontar o dedo e fingir que não é com a gente. Ela apenas falou de forma simples, precisa e didática aquilo que sempre soubemos e que escolhemos ignorar.

 

Taís Araújo teve a sua fala menosprezada porque jogou a verdade na nossa cara. E a reação natural do ser humano ao se sentir atacado é contra-atacar. Fizemos isso tentando desqualificá-la com falácias e piadas que, inclusive, acabaram por ilustrar exatamente aquilo que ela denunciou: nosso racismo velado e indireto. 

 

As situações envolvendo Bruno Gagliasso e Taís Araújo repetiram o paradoxo da pesquisa do IBGE. Repudiamos (ou fingimos repudiar) o racismo do outro, mas negamos até a morte que façamos o mesmo, especialmente quando ninguém o flagrou.

 

LUCAS RODRIGUES é jornalista e escritor em Cuiabá.

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